Viriato

No princípio era o Verbo e a sua fome,
Depois,
O Verbo olhou-se e reparou nos dois
Que trazia no ventre do seu nome.

Contos largos da vida...
Tudo começa nebuloso e oculto.
Cada forma a nascer, já perseguida
Pela sombra incorpórea do seu vulto.

Pastor de ovelhas, simples criatura
A pintar de infinito a sua tela,
O rebanho que eu tinha era a brancura
Dessa inocência original, singela. 

No impreciso azul é que eu morava,
Emigrado feliz da minha ausência.
Longe do berço quente que pisava,
Realizava a humana transcendência. 

Mas nisto um lobo astuto e desmedido
Uivou ao meu destino em voz de guerra;
E eu de repente ouvi o teu gemido
Dentro de mim, transfigurado em terra! 

O meu nome de ibero é Viriato.
O princípio de ti, ó Mãe, sou eu.
Eu é que fiz o acto
De namorar o chão em vez do céu.

 

Autor: Miguel Torga (1907-1995)
Editado por: nicoladavid


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