Vila Verde

 

Cadeia de Vila Verde,
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.

Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos... E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava...

Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!

Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens.
Estendi-lhes, pelas grades,
A palma da minha mão...

Cuidado, cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo

Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?

Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:
— Cão!

 

Autor: Pedro Homem de Melo (1904-1984)
Editado por: nicoladavid



Comments