Da janela de onde olha a paisagem lá fora

 

Da janela de onde olha a paisagem lá fora,

a escutar o fluir da água que canta e chora,

por sob a ponte, sempre em mesmo diapasão,

como se o rio fosse a música do chão, o poeta sonha...

Desce a sombra nas calçadas.

Alguém passa assobiando umas notas trinadas.

O ar amortece ...
A brisa é terna como um beijo
nos olhos...
E, ao sabor da brisa, sem desejo,

sem ânsias e sem pressa, erra o seu pensamento,

vadiamente, como um pássaro ao relento...

Pouco a pouco, porém, a doçura da tarde

que os contornos suaviza e que as folhas encarde,

e esse esparso langor da hora crepuscular

em que tudo parece estático, a cismar,

despertam na sua alma ignota melodia.

Memória... exaltação... delícia...nostalgia...

Silêncio. A natureza arfa e se exaure, lassa.

Fechar de asas e sons e ruídos em que passa

a eterna indagação do crepúsculo...
E quando
no céu amplo e disperso

nasce a primeira estrela cintilando,

nasce o primeiro verso...


Autor: Onestaldo de Pennafort (1902-1987)
Editado por: nicoladavid

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