Nas Feuillantines

 

Meus dois irmãos e eu bem pequeninos éramos.
Nossa mãe nos dizia: «Brinquem, mas cuidado
Em não pisar as flores, nem subir escadas.»

Eu era o mais novito; o mais crescido, Abel.
Comíamos o pão com apetite tal
Que, vendo-nos passar, sorriam-se as mulheres.

Um antigo convento era o lugar dos jogos.
Em velho armário víamos inacessível,
Lá bem ao alto, um livro enorme, negras capas.

Um dia, nem soubemos como, conseguimos
Trepar o velho armário até chegar ao livro.
Recordo-me tão bem! Exactamente a Bíblia!

Tinham odor de incenso as suas grandes folhas.
A um canto nos sentámos, mergulhando em sonhos.
Ah! Que ventura a nossa! Tantas as gravuras!

Abrimos sobre o colo o gigantesco livro.
Esquecemos os jogos, presos da leitura
Desde a primeira letra, tão bem nos sabia.

Assim, toda a manhã nós lemos as histórias
De Rute e de Booz, do Bom Samaritano.
A tarde regressámos, sempre embevecidos,

Como as crianças, quando um passarinho agarram
E as outras chamam, rindo-se de franco júbilo
Ao sentirem nas mãos aquelas doces plumas.


Autor: Victor Hugo (1802-1855)
Editado por: nicoladavid

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