Há nos lagos e nas ilhas

 

Há nos lagos e nas ilhas
Um encanto que nos prende:
Quem não entoa canções
E ao idílio não se rende?

Caçando amor pelos bosques,
Pescando amor nas ribeiras;
Formosas, fazeis de nós
Avezinhas prisioneiras.

À beira da fonte a flor
Mira-se ao espelho vaidosa:
«Boa-noite», ao mocho diz;
«Bom dia», diz à folosa.

Espera o telhado os feixes,
Primeiro pão, colmo depois;
Parece um monte nos bosques
Na relva a alcatra dos bois.

Ri-se aos patos a lagoa,
Ri-se o prado ao verdelhão,
Enquanto chiam as rodas
Do pesado carroção.

Brilha o oiro nos goiveiros
E o vento zéfiro antigo
As gordas bochechas sopra
Lá das nuvens, seu abrigo.

Jersey, sobre as ondas mansas,
Veste-se do céu azul
Como a lendária Sicília
Nos quentes mares do Sul.

Uma écloga em Álbion
Se escreve, apesar do frio.
Teócrito anda nos ares,
O vento declama Bio.

E a mesma canção repete
O zéfiro, melancólico,
Que sobre o Etna cantara
Móscus, o grilo bucólico.

Tosse o Inverno, velho tísico,
E lá se vai com a bruma;
Cantam poemas as árvores
Na melodia da espuma.

Da ensombrada natureza
Nasce a luz misteriosa;
Há mais penumbra no sonho,
A flor é mais amorosa.

Brilham no chão malmequeres;
Guardam a secreta dor
Os perfumes silenciosos
Das campânulas em flor.

Sobre as águas, sobre os campos
Voam asas ao de leve:
Pequeninas asas brancas
De borboletas de neve.

Espelha-se a madrugada
No mar, sorriso de argento;
Vestem as urzes o monte
De solene paramento.

E o monte, olhando os abismos
Sob a mitra de granito,
Da sua missa sublime
Celebra, hierático, o rito.


Autor: Victor Hugo (1802-1855)
Editado por: nicoladavid

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