Booz Adormecido

 

Deitara-se Booz, exausto de fadiga.
Após o dia todo a trabalhar na eira,
A cama preparou no sítio habitual
Entre moios de trigo e moios de cevada.
Senhor era Booz de grandes sementeiras.
Idoso, rico embora, justo se mostrava:
Dos seus moinhos eram límpidas as águas;
Fogo de sua forja, inferno jamais fora.
Barba de prata como as torrentes de Abril,
Jamais guardou Booz, avaro, a sua messe.
Se respigando via uma pobre mulher:
— Deixai — dizia ele —, cair muitas espigas!
Bem longe das erradas vias caminhando,
A cândida honradez vestindo e o linho branco,
Eram fontes abertas seus sacos de grão
Jorrando copiosos à mercê dos pobres.
Booz: amo bondoso e para os seus fiel
Atento no poupar, mas sempre generoso.
Olhavam-no as mulheres mais que para os jovens.
Se o jovem tem beleza, é majestoso o velho;
Booz: amo bondoso e para os seus fiel
Atento no poupar, mas sempre generoso.
Olhavam-no as mulheres mais que para os jovens.
Se o jovem tem beleza, é majestoso o velho;
De novo regressando à fonte original,
Entra em dias eternos, de efémeros sai.
No vivo olhar dos moços vemos lavaredas,
No fundo olhar dos velhos vê-se a própria luz.
Como Jacob dormiu, como dormiu Judite,
Booz adormeceu na cama de folhagem.
As portas celestiais abriram-se entretanto
E das alturas sobre o ancião desceu
Um sonho:-—Vê um poderoso roble;
No seu ventre a raiz, no céu azul a fronde
E, a árvore subindo, uma nação inteira.
Em baixo um rei cantava, em cima um deus morria.
E murmurava assim Booz em seu espírito:
«Como será possível tal coisa em mim se dar?
Passou já dos oitenta a conta dos meus anos,
Filhos não me nasceram, mulher já não tenho,
Pois, Senhor Deus, aquela que dormiu comigo
Há muito já trocou meu leito pelo vosso;
E ainda agora um ao outro pertencemos,
Ela metade viva, eu já metade morto.
Como é possível crer de mim que um povo nasça?
Como de mim, idoso, filhos podem vir?
Há manhãs de triunfo quando somos jovens
E o dia sai da noite como da vitória;
Mas quando envelhecemos, somos como a bétula
Que o Inverno faz tremer. A noite cai em mim.
Meu espírito volto para a sepultura
Como um sedento boi curvado para as águas.»
Assim Booz falava extático no sonho
Voltando para Deus os olhos ensonados.
Não adivinha o cedro a rosa junto a si,
Como Booz não vê a seus pés a Moabita.

Enquanto ele dormia, Rute de Moab
Deitara-se-lhe aos pés, o seio descoberto,
Como se mendigasse um leve fio rútilo
Da luz que de repente iria despertar.
Não sabia Booz que alguém ali estava
Nem Rute adivinhava os planos que Deus tinha.
Um suave perfume subia das flores
E sobre Galgalá a brisa deslizava.
Sombra de núpcias, noite solene e sublime,
Azuis fulgores de asas breves aflorando
Na densa noite, de anjos eram com certeza.
O sono repousado de Booz lembrava
O murmúrio das águas entre os musgos verdes.
Era o suave mês no qual a natureza
Veste o cimo dos montes com a flor dos lírios.
Assim Booz dormia, sonhava a Moabita.
Leve som de rebanhos tremulava ao longe
E uma bondade imensa do céu ia baixando.
É hora de os leões virem beber tranquilos.
Tudo repousa em Ur como em Jerimadet.
Cintilam as estrelas no profundo céu
E, entre o jardim dos astros, a serena Lua
Refulge no ocidente. Erguendo um pouco os olhos
Semivelados, Rute, sem mover-se, pensa:
«Que Deus ou que ceifeiro do Verão eterno
Deixou abandonada aquela foice de oiro
Na celeste planície de estrelas semeada?»


Autor: Victor Hugo (1802-1855)
Editado por: nicoladavid

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