A Propósito de Horácio

 

Mercadores do grego e do latim! Pedantes!
Cães-de-guarda!— Eu odeio-vos, ó pedagogos!

Em vosso aprumo grave, infalível, estúpido,
Negais o ideal e a graça, negais a beleza!
Desde as asas ao bico, vós me retorcestes
No hediondo cavalete de ípsilons e xis.
Nos ossos maxilares encaixei à força

As listas de teoremas e de corolários.
Eu bem me debati, funéreo paciente,
Pedindo ao divisor a ajuda ao quociente.
Bem gritei eu!

Num dia em que for sábio o homem
E não houver mais aves dentro das gaiolas
E sentirem orgulho as nossas sociedades
Por finalmente respeitarem as crianças,
Quando houvermos sondado a lei dos largos voos
E dermos liberdade às águias de crescerem,
Quando nascer um sol que seja para todos,
Serão doces as vias que levam à ciência.
Vereis os grandes livros gregos e latinos
Ao cimo dos estudos como em altos ermos
Onde ruge o trovão, onde as estrelas riem,
Onde o espírito sopra em formidável vento.
Só penetrando neles delicadamente,
Só lhes criando amor os faz compreensíveis.
Homero arrastará nas suas vastas ondas
O deslumbrado aluno. Não será o jovem
Um animal de carga a Virgílio atrelado,
Nem seu ágil espírito veremos mais
Feito, sob o chicote de padre ou magíster,
Lazarento cavalo amarrado à lição.
Em vez do mestre antigo, demasiado escuro
Para que o dia possa entrar na velha escola,
Cada aldeia terá um luminoso templo
Lúcido professor que seja do progresso
Magistrado, que seja da ignorância médico,
Da ideia sacerdote. O costumado aluno
E o pedantesco mestre cairão na sombra.
Cantando vem a aurora, não a resmungar,
E nessa branca esfera rir-se-ão nossos filhos
De nós e dos intentos nossos de fazermos
Que um fero mocho dê lições aos passarinhos.
Erguerão finalmente os espíritos jovens
Seus olhos, em serena e pura claridade,
Para a Ciência augusta, amável, soberana.
Não mais o obscuro livro, insípido e enfadonho.
Bem atento à criança, o mestre — doce apóstolo —
Lhe dará a beber o cálice infinito
Em que oferece Deus, o -azul e a harmonia.
Então a lei e o dogma, o direito e o dever
Serão só a verdade. E os teus negros umbrais
A luz sempre mais viva deixarão passar,
Ó natura, alfabeto de grandes letras-sombras!


Autor: Victor Hugo (1802-1855)
Editado por: nicoladavid

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