Porto à noite

 

A noite desce... Com que lentidão

Comigo ela se deita!

E luminosos os anúncios vão

Tornar a vida em nós menos estreita,

 

Em cada rosto esfolha-se uma rosa

E cada ruga já desaparece!

E a carne, a minha carne voluptuosa

Sôfrega vai de encontro a qualquer prece

 

Voltam as ruas a imitar os rios

(Há quem deslize, às vezes, como um barco...)

Voltam a encher-se os corações vazios

Nesta cidade embandeirada em arco.

 

Sapek-Adubos; Tagus ou Bonança?

Jardim suspenso cujo aroma diz

Que os homens crescem quando a noite avança

A desprendê-los, quase, da raiz.

 

Cidade rubra ao longe e, ao perto escura

Gula insaciável de vilanovenses!

De que poetas andas à procura

Se aos meus poemas ávidos pertences?

 

Autor: Pedro Homem de Mello (1904-1984)

Editado por: nicoladavid

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