O Bailador De Fandango

 

Sua canção fora a Gota. 
Sua dança fora o Vira. 
Chamavam-lhe "o fandangueiro". 
Mas seu nome verdadeiro 
Quando bailava, bailava... 
Não era nome de cravo 
Nem era nome de rosa; 
Era o de flor, misteriosa, 
Que se esfolhava, esfolhava... 
E havia um cristal na vista 
E havia um cristal no ar 
Quando aquele fandanguista 
Se demorava a bailar! 
E havia um cristal no vento 
E havia um cristal no mar. 
E havia no pensamento 
Uma flor por esfolhar... 
Fandangueiro! Fandangueiro? 
(Nem sei que nome lhe dar...)

Tinha seus braços erguidos 
Não sei que ignotos sentidos... 
- Jeitos de asa pelo ar... 
Quando bailava, bailava, 
Não era folha de cravo 
Nem era folha de rosa. 
Era uma flor, misteriosa, 
Que se esfolhava, esfolhava... 
Que se esfolhava, esfolhava...

Domingos Enes Pereira, 
Do lugar de Montedor, 
(O bailador de Fandango 
Era aquele bailador!) 
Vinham moças de Areosa 
Para com ele bailar... 
E vinham moças de Afife 
Para com ele bailar. 
Então as sombras dos corpos, 
Como chamas traiçoeiras, 
Entrelaçavam-se e a dança 
Cobria o chão de fogueiras...
E as sombras formavam sebe... 
O movimento as florira... 
O sonho, a noite, o desejo... 
Ai! belezas da mentira!
E as sombras entrelaçavam-se... 
Os corpos, ninguém sabia 
Se eram corpos, se eram sombras, 
Se era o amor que se escondia...

Autor: Pedro Homem de Melo (1904-1984)
Editado por: nicoladavid

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