Mater Dolorosa

 

A Mãe do Poeta chora

E a sua canção inquieta

Parece pedir perdão

Aos homens sem coração

Por ter um filho Poeta... 

 

Na praia, em pequeno, um dia

Meteu-se à onda bravia

Que, à das águas, trazia

Um peixe cor do luar...

Mas a onda fez-se mansa.

Teve dó dessa criança

Cujo crime era sonhar! 

 

Certa noite, à sua porta,

Vieram cantar os Reis

— Ai! a de branco! a de branco!

Fulvo cabelo aos anéis...

Flor, entre os dedos, singela...

E ele, então, logo perdido,

Foi pela rua, atrás dela.

No rastro do seu vestido... 

 

Aos vinte anos, cismador,

Esqueceu que havia as Sortes.

Magrinho, falho de cor... 

 

Por isso, os mais, que eram fortes

(Os que tinham ido às Sortes!)

Lhe chamam desertor. 

 

Em tardes de romaria,

Todo o mundo o viu bailar!

Quando o seu corpo bulia,

Subiam torres ao ar...

Por fim, calava-se a dança.

E ele, de novo, a criança,

Que a onda brava, depois mansa,

Recolhera no caminho... 

 

Formou-se em Doutor de Leis.

Que pode a idade e os estudos?

Seus olhos ficaram mudos

À letra fria das leis.

Seus olhos só viam dança...

Se ainda era a mesma criança

Que ouvira cantar os Reis! 

 

E a mãe do Poeta chora.

E a sua canção inquieta,

Perece pedir perdão

Aos homens sem coração

Por ter um filho Poeta...

 

Autor: Pedro Homem de Melo (1904-1984)
Editado por: nicoladavid

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