Com lírios nas mãos de neve

 

Com lírios nas mãos de neve,

Subi ao último andar,

A haver farda, era tão leve

Que fui subindo a cantar!

E fui subindo, subindo...

Só parei no patamar,

Abri as portas e janelas

Para poder respirar.

Tudo o que se via delas

Tinha a cor do meu olhar.

Da varanda me inclinei,

Para medir-lhe o tamanho.

Ai! dos vassalos de El-Rei

Aos quais El-Rei fica estranho!

Lá do alto, cá em baixo, o rio

Transformara-se em regato.

Reparei que, debruçadas,

Sobre o seu leito vazio,

Faias, apontando espadas,

Lhe exigiam um retrato.

Soprou, de súbito, o vento!

Varreu a noite a direito,

Rindo... Que risada fria!

Entanto o solar, ao vento,

Erecto fazendo peito,

Resistia, resistia...

Mas, das brechas do telhado,

Água, sôfrega, escorrera.

E o torreão do solar

- Ameias de pedra ou cera?

Era um pássaro assustado

Sem asas para voar.

 

Autor: Pedro Homem de Mello, (1904-1984)

Editado por: nicoladavid

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