Circunstância


Somos o fato escuro que vestimos.

Somos a casa imóvel que habitamos.

Os montes onde vimos níveos cimos.

E os jardins onde vemos verdes ramos.

Somos o nome que nos dão, herdado

Ou falso, igual  à tela que vendemos,

Somos o barco, a proa,  o mastro,  os remos,

As luzes da ribalta e do mercado.

Escravos de hoje, pálidos, vencidos!

A sorte grande, ai Deus! Como a ganhar?

Temos a côr mutável dos vestidos,

O olhar do vento e o hálito do mar...

Ó beira rio estreita das arcadas

Que nos promete o que depois recusa!

Somos a rua proibida, escusa

E o contacto das, mãos, quando ignoradas...

Ao ler no espelho o manto que era seu

Mas cujo arminho lhe assentava mal

(Retrato mudo, diz-me: - Quem sou eu?)

Foi que o príncipe, então reconheceu

A sua antiga condição real...

Somos baptismo, enterro, casamento

E o que pudermos amanhã roubar!

E antes de força, amor ou pensamento

Somos o vento

E o hálito do mar...

Autor: Pedro Homem de Melo (1904-1984) in Bodas Vermelhas
Editado por: nicoladavid


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