Dorme, ruazinha...


Dorme, ruazinha... É tudo escuro...

E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?

Dorme o teu sono sossegado e puro,

Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos...

 

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...

Nem guardas para acaso persegui-los...

Na noite alta, como sobre um muro,

As estrelinhas cantam como grilos...

 

O vento está dormindo na calçada,

O vento enovelou-se como um cão...

Dorme, ruazinha... Não há nada...

 

Só os meus passos... Mas tão leves são

Que até parecem, pela madrugada,

Os da minha futura assombração...


Autor: Mário Quintana (1906-1994)

Editado por: nicoladavid

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