Um mover de olhos brando e piedoso

 

Um mover de olhos brando e piedoso
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ūa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)
Editado por: nicoladavid

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