Senhora minha, se de pura inveja

 

Senhora minha, se de pura inveja

Amor me tolhe a vista delicada,

A cor, de rosa e neve semeada,

E dos olhos a luz que o Sol deseja,

 

Não me pode tolher que vos não veja

Nesta alma, que ele mesmo vos tem dada,

Onde vos terei sempre debuxada,

Por mais cruel inimigo que me seja.

 

Nela vos vejo, e vejo que não nasce

Em belo e fresco prado deleitoso

Senão flor que dá cheiro a toda a serra.

 

Os lírios tendes nu~a e noutra face.

Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso

Quem os tiver, se há tanto bem na terra!

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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