Os olhos onde o casto amor ardia

 

Os olhos onde o casto amor ardia,
Ledo de se ver neles abrasado,
O rosto, onde com lustre desusado,
 Purpúrea rosa sobre neve ardia;

O cabelo, que inveja ao sol fazia,
Porque fazia o seu menos dourado;
A branca mão, o corpo bem talhado,
Tudo aqui se reduz a terra fria.

Perfeita formosura em tenra idade,
Qual flor que antecipada foi colhida,
Manchada está da mão da morte dura.

Como não morre Amor de piedade?
Não dela, que se foi à clara vida,
Mas de si, que ficou em noite escura.

Autor: Luis Vaz de Camões (1524 - 1580)
Editado por: nicoladavid

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