OS LUSÍADAS - Canto V

   Canto V

I

Estas sentenças tais o velho honrado
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: «Boa viagem!
»; logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.

II

Entrava neste tempo o eterno lume
No animal no meio truculento;
E o Mundo, que com tempo se                                                     [consume,
Na sexta idade andava, enfermo e                                                     [lento.
Nela vê, como tinha por costume,
Cursos do Sol catorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que                                                     [corria,
Quando no mar a armada se estendia.

III

Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se                                                        [alongavam;
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E, já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

IV

Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à                                                     [direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.

V

Passámos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assi se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a                                                        [derradeira,
Se lhe avantajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

VI

Deixámos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam,
Gente que as frescas águas nunca                                                     [gosta,
Nem as ervas do campo bem lhe                                                    [abastam;
A terra a nenhum fruto, enfim,                                                        [disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inópia,
Que aparta a Barbaria de Etiópia.

VII

Passámos o limite aonde chega
O Sol, que para o Norte os carros guia;
Onde jazem os povos a quem nega
O filho de Climene a cor do dia.
Aqui gentes estranhas lava e rega
Do negro Sanagá a corrente fria,
Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
Chamando-se dos nossos, Cabo Verde.

VIII

Passadas tendo já as Canárias ilhas,
Que tiveram por nome Fortunadas,
Entrámos, navegando, pelas filhas
Do velho Hespério, Hespéridas                                                     [chamadas;
Terras por onde novas maravilhas
Andaram vendo já nossas armadas.
Ali tomámos porto com bom vento,
Por tomarmos da terra mantimento.

IX

Àquela ilha aportámos que tomou
O nome do guerreiro Santiago,
Santo que os Espanhóis tanto ajudou
A fazerem nos Mouros bravo estrago.
Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
Tornámos a cortar o imenso lago
Do salgado Oceano, e assim deixámos
A terra onde o refresco doce achámos.

X

Por aqui rodeando a larga parte
De África, que ficava ao Oriente
A província Jalofo, que reparte
Por diversas nações a negra gente;
A mui grande Mandinga, por cuja arte
Logramos o metal rico e luzente,
Que do curvo Gambeia as águas bebe,
As quais o largo Atlântico recebe;

XI

As Dórcadas passámos, povoadas
Das Irmãs que outro tempo ali viviam,
Que, de vista total sendo privadas,
Todas três dum só olho se serviam.
Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
Neptuno lá nas águas acendiam,
Tornada já de todas a mais feia,
De bívoras encheste a ardente areia.

XII

Sempre, enfim, para o Austro a aguda                                                 [proa,
No grandíssimo golfão nos metemos,
Deixando a Serra aspérrima Leoa,
Co’o Cabo a quem das Palmas nome                                                 [demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas, que ali temos,
Ficou, co’a a Ilha ilustre, que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou.

XIII

Ali o mui grande reino está de Congo,
Por nós já convertido à fé de Cristo,
Por onde o Zaire passa, claro e longo,
Rio pelos antigos nunca visto.
Por este largo mar, enfim, me alongo
Do conhecido Pólo de Calisto,
Tendo o término ardente já passado
Onde o meio do Mundo é limitado.

XIV

Já descoberto tínhamos diante,
Lá no novo Hemispério, nova estrela,
Não vista de outra gente, que,                                                    [ignorante,
Alguns tempos esteve incerta dela.
Vimos a parte menos rutilante
E, por falta de estrelas, menos bela,
Do Pólo fixo, onde inda se não sabe
Que outra terra comece ou mar acabe.

XV

Assim, passando aquelas regiões
Por onde duas vezes passa Apolo,
Dois Invernos fazendo e dois Verões,
Enquanto corre dum ao outro Pólo,
Por calmas, por tormentas e opressões,
Que sempre faz no mar o irado Eolo,
Vimos as Ursas, a pesar de Juno,
Banharem-se nas águas de Neptuno.

XVI

Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens não                                                 [entendem,
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpagos que o ar em fogo                                                         [acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões, que o mundo                                                 [fendem,
Não menos é trabalho que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.

XVII

Os casos vi, que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa                                                      [experiência,
Contam por certos sempre e                                                     [verdadeiros,
Julgando as coisas só pola aparência,
E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Vêm do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos ou mal entendidos.

XVIII

Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento                                                        [esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e coisa, certo, de alto                                                       [espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

XIX

Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava): levantar-se
No ar um vapor zinho e sutil fumo
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao Pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens parecia.

XX

Ia-se pouco e pouco acrescentando
E mais que um largo masto se                                                  [engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga,                                                        [quando
Os golpes grandes de água em si                                                   [chupava;
Estava-se co’as ondas ondeando;
Em cima dele uma nuvem se                                                         [espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada,
Co’o cargo grande d'água em si                                                        [tomada.

XXI

Qual roxa sanguessuga se veria
Nos beiços da alimária (que,                                                     [imprudente,
Bebendo a recolheu na fonte fria)
Fartar co’o sangue alheio a sede                                                   [ardente;
Chupando, mais e mais se engrossa e                                                    [cria,
Ali se enche e se alarga grandemente:
Tal a grande coluna, enchendo,                                                     [aumenta
A si e a nuvem negra que sustenta.

XXII

Mas, depois que de todo se fartou,
O pé que tem no mar a si recolhe
E pelo céu, chovendo, enfim voou,
Por que co’a água a jacente água                                                     [molhe;
Às ondas torna as ondas que tomou,
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
Vejam agora os sábios na escritura
Que segredos são estes de Natura!

XXIII

Se os antigos Filósofos, que andaram
Tantas terras, por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei, passaram,
A tão diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influição de sinos e de estrelas!
Que estranhezas, que grandes                                                   [qualidades!
E tudo, sem mentir, puras verdades.

XXIV

Mas já o Planeta que no Céu primeiro
Habita, cinco vezes, apressada,
Agora meio rosto, agora inteiro,
Mostrara, enquanto o mar cortava a                                                 [armada,
Quando da etérea gávea, um                                                        [marinheiro,
Pronto co’a vista: «Terra! Terra!»                                                       [brada.
Salta no bordo alvoroçado a gente,
Co’os olhos no horizonte do Oriente.

XXV

A maneira de nuvens se começam
A descobrir os montes que                                                         [enxergamos;
As âncoras pesadas se adereçam;
As velas, já chegados, amainamos.
E, para que mais certas se conheçam
As partes tão remotas onde estamos,
Pelo novo instrumento do Astrolábio,
Invenção de sutil juízo e sábio,

XXVI

Desembarcamos logo na espaçosa
Parte, por onde a gente se espalhou,
De ver cousas estranhas desejosa,
Da terra que outro povo não pisou.
Porém eu, co’os pilotos, na arenosa
Praia, por vermos em que parte estou,
Me detenho em tomar do Sol a altura
E compassar a universal pintura.



XXVII

Achámos ter de todo já passado
Do semicapro Peixe a grande meta,
Estando entre ele e o círculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo um estranho vir, de pele preta,
Que tomaram por força, enquanto                                                 [apanha
De mel os doces favos na montanha.

XXVIII

Torvado vem na vista, como aquele
Que não se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Começo-lhe a mostrar da rica pele
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia.

XXIX

Mando mostrar-lhe peças mais                                                        [somenos:
Contas de cristalino transparente,
Alguns soantes cascavéis pequenos,
Um barrete vermelho, cor contente;
Vi logo, por sinais e por acenos,
Que com isto se alegra grandemente.
Mando-o soltar com tudo e assim                                                     [caminha
Para a povoação, que perto tinha.

XXX

Mas, logo ao outro dia, seus parceiros,
Todos nus e da cor da escura treva,
Descendo pelos ásperos outeiros,
As peças vêm buscar que estoutro leva.
Domésticos já tanto e companheiros
Se nos mostram, que fazem que se                                                        [atreva
Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
E partir-se com eles pelo mato.

XXXI

É Veloso no braço confiado
E, de arrogante, crê que vai seguro;
Mas, sendo um grande espaço já                                                     [passado,
Em que algum bom sinal saber procuro,
Estando, a vista alçada, co’o cuidado
No aventureiro, eis pelo monte duro
Aparece e, segundo ao mar caminha,
Mais apressado do que fora, vinha.

XXXII

O batel de Coelho foi depressa
Polo tomar; mas, antes que chegasse,
Um Etíope ousado se arremessa
A ele, por que não se lhe escapasse;
Outro e outro lhe saem; vê-se em                                                     [pressa
Veloso, sem que alguém lhe ali                                                     [ajudasse;
Acudo eu logo, e, enquanto o remo                                                 [aperto,
Se mostra um bando negro,                                                         [descoberto.

XXXIII

Da espessa nuvem setas e pedradas
Chovem sobre nós outros, sem medida;
E não foram ao vento em vão deitadas,
Que esta perna trouxe eu dali ferida.
Mas nós, como pessoas magoadas,
A reposta lhe demos tão tecida
Que em mais que nos barretes se                                                     [suspeita
Que a cor vermelha levam desta feita.

XXXIV                                   


E, sendo já Veloso em salvamento,
Logo nos recolhemos pera a armada,
Vendo a malícia feia e rudo intento
Da gente bestial, bruta e malvada,
De quem nenhum melhor conhecimento
Pudemos ter da Índia desejada
Que estarmos inda muito longe dela.
E assim tornei a dar ao vento a vela.

XXXV

Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir):
«Olá, Veloso amigo! Aquele outeiro
É melhor de descer que de subir!»
«Sim, é», responde o ousado                                                         [aventureiro;
Mas, quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem                                                         [mim.»

XXXVI

Contou então que, tanto que passaram
Aquele monte os negros de quem falo,
Avante mais passar o não deixaram,
Querendo, se não torna, ali matá-lo;
E tornando-se, logo se emboscaram,
Por que, saindo nós pera tomá-lo,
Nos pudessem mandar ao reino escuro,
Por nos roubarem mais a seu seguro.

XXXVII

Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

XXXVIII

Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
«Ó Potestade, disse sublimada:
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor coisa parece que tormenta?»

XXXIX

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

XL

Tão grande era de membros, que bem                                                     [posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
C’um tom de voz nos fala, horrendo e                                                     [grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

XLI

E disse: «Ó gente ousada, mais que                                                     [quantas
No mundo cometeram grandes coisas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e                                                 [tenho,
Nunca arados d'estranho ou próprio                                                         [lenho;

XLII

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mim que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pela terra
Que inda hás-de subjugar com dura                                                        [guerra.

XLIII

Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem,
Com ventos e tormentas desmedidas;
E da primeira armada que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo
Que seja mor o dano que o perigo!

XLIV

Aqui espero tomar, se não me engano,
De quem me descobriu suma vingança;
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinace confiança:
Antes, em vossas naus vereis, cada ano,
Se é verdade o que meu juízo alcança,
Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte!

XLV

E do primeiro ilustre, que a ventura
Com fama alta fizer tocar os Céus,
Serei eterna e nova sepultura,
Por juízos incógnitos de Deus.
Aqui porá da Turca armada dura
Os soberbos e prósperos troféus;
Comigo de seus danos o ameaça
A destruída Quíloa com Mombaça.

XLVI

Outro também virá, de honrada fama,
Liberal, cavaleiro, enamorado,
E consigo trará a formosa dama
Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terreno meu, que, duro e irado,
Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Pera verem trabalhos excessivos.

XLVII

Verão morrer com fome os filhos caros,
Em tanto amor gerados e nascidos;
Verão os Cafres, ásperos e avaros,
Tirar à linda dama seus vestidos;
Os cristalinos membros e perclaros
À calma, ao frio, ao ar, verão despidos,
Despois de ter pisada, longamente,
Co’os delicados pés a areia ardente.

XLVII

E verão mais os olhos que escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dois amantes míseros ficarem
Na férvida, implacábil espessura.
Ali, depois que as pedras abrandarem
Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Abraçados, as almas soltarão
Da fermosa e misérrima prisão.»

XLIX

Mais ia por diante o monstro horrendo,
Dizendo nossos Fados, quando, alçado,
Lhe disse eu: «Quem és tu? Que esse                                             [estupendo
Corpo, certo me tem maravilhado!»
A boca e os olhos negros retorcendo
E dando um espantoso e grande brado,
Me respondeu, com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara:

L

«Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio,                                                      [Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende!

LI

Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
Qual Encélado, Egeu e o Centimano;
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pusesse serra sobre serra,
Mas, conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Neptuno, que eu buscava.

LII

Amores da alta esposa de Peleu
Me fizeram tomar tamanha empresa;
Todas as Deusas desprezei do Céu,
Só por amar das águas a princesa.
Um dia a vi, co’as filhas de Nereu,
Sair nua na praia e logo presa
A vontade senti de tal maneira
Que inda não sinto coisa que mais                                                         [queira.

LIII

Como fosse impossível alcançá-la,
Pela grandeza feia de meu gesto,
Determinei por armas de tomá-la
E a Dóris este caso manifesto.
De medo a Deusa então por mim lhe                                                            [fala;
Mas ela, c’um formoso riso honesto,
Respondeu: «Qual será o amor bastante
De Ninfa, que sustente o dum Gigante?

LIV

Contudo, por livrarmos o Oceano
De tanta guerra, eu buscarei maneira
Com que, com minha honra, escuse o                                                     [dano.»
Tal resposta me torna a mensageira.
Eu, que cair não pude neste engano
(Que é grande dos amantes a cegueira),
Encheram-me, com grandes abondanças,
O peito de desejos e esperanças.

LV

Já néscio, já da guerra desistindo,
Uma noite, de Dóris prometida,
Me aparece de longe o gesto lindo
Da branca Tétis, única, despida.
Como doido corri de longe, abrindo
Os braços para aquela que era vida
Deste corpo, e começo os olhos belos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.

LVI

Oh! Que não sei de nojo como o conte!
Que, crendo ter nos braços quem                                                         [amava,
Abraçado me achei c’um duro monte
De áspero mato e de espessura brava.
Estando c’um penedo fronte a fronte,
Que eu pelo rosto angélico apertava,
Não fiquei homem, não; mas mudo e                                                     [quedo
E, junto dum penedo, outro penedo!

LVII

Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Daqui me parto, irado e quase insano
Da mágoa e da desonra ali passada,
A buscar outro mundo, onde não visse
Quem de meu pranto e de meu mal se                                                       [risse.

LVIII

Eram já neste tempo meus Irmãos
Vencidos e em miséria extrema postos,
E, por mais segurar-se os Deuses vãos,
Alguns a vários montes sotopostos.
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meus                                                     [desgostos,
Comecei a sentir do Fado imigo,
Por meus atrevimentos, o castigo:

LIX

Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;
Estes membros que vês, e esta figura,
Por estas longas águas se estenderam.
Enfim, minha grandíssima estatura
Neste remoto Cabo converteram
Os Deuses; e, por mais dobradas                                                         [mágoas,
Me anda Tétis cercando destas águas.»

LX

Assim contava; e, c’um medonho choro,
Súbito d'ante os olhos se apartou;
Desfez-se a nuvem negra, e c’um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos, que Adamastor contou futuros.

LXI

Já Flégon e Piróis vinham tirando,
Co’os outros dois, o carro radiante,
Quando a terra alta se nos foi mostrando
Em que foi convertido o grão Gigante.
Ao longo desta costa, começando
Já de cortar as ondas do Levante,
Por ela abaixo um pouco navegámos,
Onde segunda vez terra tomámos.

LXII

A gente que esta terra possuía,
Posto que todos Etiopes eram,
Mais humana no trato parecia
Que os outros que tão mal nos                                                         [receberam.
Com bailos e com festas de alegria
Pela praia arenosa a nós vieram,
As mulheres consigo e o manso gado
Que apascentavam, gordo e bem criado.

LXIII

As mulheres, queimadas, vêm em cima
Dos vagarosos bois, ali sentadas,
Animais que eles têm em mais estima
Que todo o outro gado das manadas.
Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
Na sua língua cantam, concertadas
Co’o doce som das rústicas avenas
Imitando de Títiro as Camenas.

LXIV

Estes, como na vista prazenteiros
Fossem, humanamente nos trataram,
Trazendo-nos galinhas e carneiros
A troco doutras peças que levaram;
Mas como nunca, enfim, meus                                                     [companheiros
Palavra sua alguma lhe alcançaram
Que desse algum sinal do que buscamos,
As velas dando, as âncoras levamos.


LXV

Já aqui tínhamos dado um grão rodeio
À costa negra de África, e tornava
A proa a demandar o ardente meio
Do Céu, e o Pólo Antártico ficava.
Aquele ilhéu deixámos onde veio
Outra armada primeira, que buscava
O Tormentório Cabo e, descoberto,
Naquele ilhéu fez seu limite certo.

LXVI

Daqui fomos cortando muitos dias,
Entre tormentas tristes e bonanças,
No largo mar fazendo novas vias,
Só conduzidos de árduas esperanças.
Co’o mar um tempo andámos em                                                         [porfias,
Que, como tudo nele são mudanças,
Corrente nele achámos tão possante,
Que passar não deixava por diante:

LXVII

Era maior a força em demasia,
Segundo para trás nos obrigava,
Do mar, que contra nós ali corria,
Que por nós a do vento que assoprava.
Injuriado Noto da porfia
Em que co’o mar (parece) tanto estava,
Os assopros esforça iradamente,
Com que nos fez vencer a grão corrente.

LXVIII

Trazia o Sol o dia celebrado
Em que três Reis das partes do Oriente
Foram buscar um Rei, de pouco nado,
No qual Rei outros três há juntamente;
Neste dia outro porto foi tomado
Por nós, da mesma já contada gente,
Num largo rio, ao qual o nome demos
Do dia em que por ele nos metemos.

LXXXIX

Ventos soltos lhe finjam e imaginem
Dos odres, e Calipsos namoradas;
Harpias que o manjar lhe contaminem;
Descer às sombras nuas já passadas:
Que, por muito e por muito que se                                                         [afinem
Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,
A verdade que eu conto, nua e pura,
Vence toda grandíloqua escritura!»

XC

Da boca do facundo Capitão
Pendendo estavam todos, embebidos,
Quando deu fim à longa narração
Dos altos feitos, grandes e subidos.
Louva o Rei o sublime coração
Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
Da gente louva a antiga fortaleza,
A lealdade d'ânimo e nobreza.

XCI

Vai recontando o povo, que se admira,
O caso cada qual que mais notou;
Nenhum deles da gente os olhos tira
Que tão longos caminhos rodeou.
Mas já o mancebo Délio as rédeas vira
Que o irmão de Lampécia mal guiou,
Por vir a descansar nos Tétios braços;
E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.

XCII

Quão doce é o louvor e a justa glória
Dos próprios feitos, quando são soados!
Qualquer nobre trabalha que em                                                         [memória
Vença ou iguale os grandes já passados.
As invejas da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados.
Quem valorosas obras exercita,
Louvor alheio muito o esperta e incita.

XCIII

Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandro, na peleja,
Quanto de quem o canta os numerosos
Versos: isso só louva, isso deseja.
Os troféus de Milcíades, famosos,
Temístocles despertam só de inveja;
E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.

XCIV

Trabalha por mostrar Vasco da Gama
Que essas navegações que o mundo                                                         [canta
Não merecem tamanha glória e fama
Como a sua, que o Céu e a Terra                                                         [espanta.
Sim; mas aquele Herói que estima e ama
Com dons, mercês, favores e honra                                                         [tanta
A lira Mantuana, faz que soe
Eneias, e a Romana glória voe.

XCV

Dá a terra Lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dons
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos
(Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,
Quando a deixava António por Glafira).

XCVI

Vai César subjugando toda França
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas, numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.

XCVII

Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão-somente.
Sem vergonha o não digo: que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe arte, não na                                                        [estima.

XCVIII

Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudes e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada                                                         [disso.

XCIX

Às Musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da pátria, que as obriga
A dar aos seus, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se                                                 [chama,
Calíope não tem por tão amiga
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas d' ouro fino e que o cantassem.

C

Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o prossuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe, enfim, de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o                                                         [peito:
Que, por esta ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço e sua valia.

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)
Editado por: nicoladavid