Ondados fios d'ouro reluzente

 

Ondados fios d'ouro reluzente,

que, agora da mão bela recolhidos,

agora sobre as rosas estendidos,

fazeis que sua beleza se acrescente;

 

Olhos, que vos moveis tão docemente,

em mil divinos raios entendidos,

se de cá me levais alma e sentidos,

que fora, se de vós não fora ausente?

 

Honesto riso, que entre a mor fineza

de perlas e corais nasce e parece,

se n'alma em doces ecos não o ouvisse!

 

Se imaginando só tanta beleza

de si, em nova glória, a alma se esquece,

que fará quando a vir? Ah! quem a visse!


Autor: Luis de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

 
 
Comments