No tempo que de Amor viver soía

 

No tempo que de Amor viver soía,

nem sempre andava ao remo ferrolhado;

antes agora livre, agora atado,

em várias flamas variamente ardia.

 

Que ardesse num só fogo, não queria

O Céu, porque tivesse experimentado

que nem mudar as causas ao cuidado

mudança na ventura me faria.

 

E se algum pouco tempo andava isento,

foi como quem co peso descansou,

por tornar a cansar com mais alento.

 

Louvado seja Amor em meu tormento,

pois para passatempo seu tomou

este meu tão cansado sofrimento!


Autor: Luis de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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