Foi já num tempo doce cousa amar

 

Foi já num tempo doce cousa amar,

enquanto m'enganava a esperança;

O coração, com esta confiança,

todo se desfazia em desejar.

 

Ó vão, caduco e débil esperar!

Como se desengana üa mudança!

Que, quanto é mor a bem aventurança,

tanto menos se crê que há de durar!

 

Quem já se viu contente e prosperado,

vendo se em breve tempo em pena tanta,

razão tem de viver bem magoado.

 

Porém quem tem o mundo exprimentado,

não o magoa a pena nem o espanta,

que mal se estranhará o costumado.

 

Autor: Luis de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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