Eu vivia de lágrimas isento

 

Eu vivia de lágrimas isento,

num engano tão doce e deleitoso

que em que outro amante fosse mais ditoso,

não valiam mil glórias um tormento.

 

Vendo-me possuir tal pensamento,

de nenhuma riqueza era invejoso;

vivia bem, de nada receoso,

com doce amor e doce sentimento.

 

Cobiçosa, a Fortuna me tirou

deste meu tão contente e alegre estado,

e passou-me este bem, que nunca fora:

 

em troco do qual bem só me deixou

lembranças, que me matam cada hora,

trazendo-me à memória o bem passado.

 

Autor: Luis de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

Comments