Está o lascivo e doce passarinho

 

Está o lascivo e doce passarinho

com o biquinho as penas ordenando;

o verso sem medida, alegre e brando,

espedindo no rústico raminho;

 

O cruel caçador (que do caminho

se vem calado e manso desviando)

na pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

 

Dest' arte o coração, que livre andava,

(posto que já de longe destinado)

onde menos temia, foi ferido.

 

Porque o Frecheiro cego me esperava,

para que me tomasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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