Doces águas e claras do Mondego

 

Doces águas e claras do Mondego,

doce repouso de minha lembrança,

onde a comprida e pérfida esperança

longo tempo após si me trouxe cego;

 

 

de vós me aparto; mas, porém, não nego

que inda a memória longa, que me alcança,

me não deixa de vós fazer mudança,

mas quanto mais me alongo, mais me achego.

 

Bem pudera Fortuna este instrumento

d'alma levar por terra nova e estranha,

oferecido ao mar remoto e vento;

 

mas alma, que de cá vos acompanha,

nas asas do ligeiro pensamento,

para vós, águas, voa, e em vós se banha.

 

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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