Correm turvas as águas deste rio

 

Correm turvas as águas deste rio,

que as do Céu e as do monte as enturbaram;

os campos florecidos se secaram,

intratável se fez o vale, e frio.

 

Passou o Verão, passou o ardente Estio,

üas cousas por outras se trocaram;

os fementidos Fados já deixaram

do mundo o regimento, ou desvario.

 

Tem o tempo sua ordem já sabida;

o mundo, não; mas anda tão confuso,

que parece que dele Deus se esquece.

 

Casos, opiniões, natura e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.

 

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

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