Ah! Fortuna cruel! Ah! duros fados!

 

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!

Quão asinha em meu dano vos mudastes!

Passou o tempo que me descansastes,

agora descansais com meus cuidados.

 

Deixastes-me sentir os bens passados,

para mor dor da dor que me ordenastes;

então nü'hora juntos mos levastes,

deixando em seu lugar males dobrados.

 

Ah! quanto milhor fora não vos ver,

gostos, que assi passais tão de corrida,

que fico duvidoso se vos vi:

 

Sem vós já me não fica que perder,

se não se for esta cansada vida,

que por mor perda minha não perdi.


E se vires que pode merecer te

algüa causa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver te,

quão cedo de meus olhos te levou.

 

 

Autor: Luis Vaz de Camões (1524-1580)

Editado por: nicoladavid

 

 

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