O tumulto concentrado


O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual...
Fazer filhos à razão prática, como os crentes enérgicos...
Minha juventude perpétua
De viver as coisas pelo lado das sensações e não das responsabilidades.
(Álvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-avô,
padre, que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas). (Veio
para Lisboa muito novo...)
A capacidade de pensar o que sinto que me distingue do homem vulgar
Mais do que ele se distingue do macaco.
(Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e compreenda a substância do meu ser.
Sim, admito-o,
Mas o macaco já hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a substância do ser).
Se alguma coisa foi porque é que não é?
Ser não é ser?
As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afectos que tive, e até os afectos que pensei ter?
Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta,
E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?

Autor: Fernando Pessoa “Álvaro de Campos” (1888-1935)
Editado por: nicoladavid


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