Em Busca da Beleza

 

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa

Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria idéia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.
 

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,

Achando-a intérmina, a chorar perdemos.


O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia da Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

Autor: Fernando Pessoa (1888-1935)
Editado por: nicoladavid

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