Ela canta, pobre ceifeira

 

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

 

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

 

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões p'ra cantar que a vida.

 

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando!

 

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! O céu!
O campo! O canção! A ciência

 

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

 

Autor: Fernando Pessoa (1888-1935)
Editado por: nicoladavid

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