De quem é o olhar

 

De quem é o olhar

Que espreita por meus olhos ?

Quando penso que vejo,

Quem continua vendo

Enquanto estou pensando ?

Por que caminhos seguem,

Não os meus tristes passos,

Mas a realidade

De eu ter passos comigo ?

 

Às vezes, na penumbra

Do meu quarto, quando eu

Por mim próprio mesmo

Em alma mal existo,

 

Toma um outro sentido

Em mim o Universo —

É uma nódoa esbatida

De eu ser consciente sobre

Minha idéia das coisas.

 

Se acenderem as velas

E não houver apenas

A vaga luz de fora —

Não sei que candeeiro

Aceso onde na rua —

Terei foscos desejos

De nunca haver mais nada

No Universo e na Vida

De que o obscuro momento

Que é minha vida agora!

 

Um momento afluente

Dum rio sempre a ir

Esquecer-se de ser,

Espaço misterioso

Entre espaços desertos

Cujo sentido é nulo

E sem ser nada a nada.

E assim a hora passa

Metafisicamente.

Autor: Fernando Pessoa (1888-1935)
Editado por: nicoladavid

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