Da nossa semelhança com os deuses

 

Da nossa semelhança com os deuses

Por nosso bem tiremos

Julgarmo-nos de idades exiladas

E possuindo a Vida

Por uma autoridade primitiva

E coeva de Jove.

 

Altivamente donos de nós-mesmos,

Usemos a existência

Como a vila que os deuses nos concedem

Para, esquecer o estio.

 

Não de outra forma mais apoquentada

Nos vale o esforço usarmos

A existência indecisa e afluente

Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino

É calmo e inexorável,

Acima de nós-mesmos construamos

Um fado voluntário

Que quando nos oprima nós sejamos

Esse que nos oprime,

E quando entremos pela noite dentro

Por nosso pé entremos.


Autor: Fernando Pessoa ´Ricardo Reis’ (1888-1935)
Editado por: nicoladavid
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