Bem, hoje que estou só e posso ver


Bem, hoje que estou só e posso ver 
Com o poder de ver do coração 
Quanto não sou, quanto não posso ser, 
Quanto se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me 
Definitivamente ser ninguém, 
E de mim mesmo, altivo, demitir-me 
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias, 
Nada fui, nada ousei e nada fiz, 
Nem colhi nas urtigas dos meus dias 
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico 
Em qualquer cousa, se procurar bem,  
A grande indiferença com que fico. 
Escrevo-o para o lembrar bem.

 

Autor: Fernando Pessoa “Alberto Caeiro” (1888-1935)
Editado por: nicoladavid


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