A Parte do Indolente


A Parte do indolente é a abstracta vida. 
Quem não emprega o esforço em conseguir, 
Mas o deixa ficar, deixa dormir, 
O deixa sem futuro e sem guarida,

Que mais haurir pode da morta lida, 
Da sentida vaidade de seguir 
Um caminho, da inércia de sentir, 
Do extinto fogo e da visão perdida, 

 
Senão a calma aquiescência em ter 
No sangue entregue, e pelo corpo todo 
A consciência de nada qu'rer nem ser,

A interversão das coisas atingíveis, 
E o renunciá-las, como um lindo modo 
Das mãos que a palidez torna impassíveis.

 

Autor: Fernando Pessoa (1888-1935)
Editado por: nicoladavid



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