Manfredo

 

Montanha de Jungfrau. A cena passa-se de manhã. Manfredo está só, numa rocha, à beira do precipício.

 

ACTO I — CENA II
(1-56)

 

Abandonam-me os espíritos que esconjurei, os feitiços que estudei riem-se de mim; o remédio que me podia ter aliviado foi a minha tortura. Não mais me abandono à ajuda sobre-humana; ela não tem poderes sobre o passado e, quanto ao futuro, ele não me preocupa antes de o passado ter mergulhado na treva. Oh Terra que és a minha mãe! E tu, fresca aurora, e vós, ó montanhas, porque sois tão belas? Não vos posso amar. E tu, sol, que és o olhar cintilante do universo, que tudo envolves e alegras, tu não brilhas no meu coração. E vós, rochedos em cuja extremidade me encontro, olhando, lá em baixo, nas margens da torrente, os altos pinheiros que a vertigem da distância torna minúsculos como arbustos. Um salto, um gesto, um movimento, um suspiro até precipitariam o meu corpo, que para sempre havia de repousar no leito rochoso da torrente. Mas porque hesito? Sinto em mim um impulso e, no entanto, não me atiro. Vejo o perigo e não recuo; o meu cérebro desvaira e, ainda assim, os meus pés estão firmes. Há sobre mim uma força que me sustém e me condena a viver. Se é que se pode chamar vida ao facto de trazer comigo esta esterilidade de espírito e de ser o sepulcro da minha própria alma, pois deixei de justificar a meus olhos os meus actos... Última enfermidade do mal.

 (Passa uma águia)

Sim, ministro alado que cortas as nuvens, o teu voo feliz sobe sempre até aos céus. Bem podes atacar-me assim de perto... Seria tua presa e de teus filhos; fugiste para onde nem o meu olhar te segue; mas os teus olhos penetram em todas as direcções com uma visão que tudo abrange. Que belo! Que belo é todo este mundo visível! Que glorioso no seu acontecer e em si mesmo! Mas nós, que nos apelidamos seus senhores, nós que somos metade pó e metade deuses, tão incapazes de mergulhar como de pairar nas alturas, com a nossa natureza ambígua pomos os elementos em conflito e respiramos o ar da degradação e do orgulho, lutando contra os apetites inferiores e uma vontade superior até prevalecer a nossa condição de mortais e os homens serem aquilo que não confessam a si próprios nem aos outros.

(Ouve-se à distância a flauta dum pastor)

Já se ouvem as notas, a música natural da flauta da montanha. Aqui a idade patriarcal não é uma fantasia bucólica — há flautas ao ar livre, misturadas com os doces chocalhos do pachorrento rebanho; como a minha alma tinha sede desses ecos! Oh! Quem me dera ser o espírito invisível dum som melodioso, uma voz viva, uma harmonia respirada, um prazer incorpóreo, nascido e morto com esse tom abençoado que foi a minha origem!

 


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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