Dom João – Canto IX

 

Depois duma invectiva satírico-política contra Wellington, vencedor de Napoleão em Waterloo, considerada o manifesto de Byron contra a tirania, segue-se uma meditação sobre a morte.

CANTO IX

XI

A Morte ri de meditar sobre o esqueleto que para os homens é a imagem do desconhecido que oculta o passado, como um poente que algures se transforma em resplandecente aurora. A Morte ri de tudo o que chorais. Olhai esse constante terror dos terrores cuja foice ameaçadora, mesmo embainhada, faz da vida um pesadelo. Reparai como na sua boca descarnada há um horrível arremedo de sorriso.

XII

Olhai como a Morte ri e desdenha de tudo o que sois! E no entanto, ela foi aquilo que agora sois. Não se pode dizer que, ao sorrir, a boca se lhe escancare até às orelhas, pois os esqueletos nem as têm. Há muito que a Morte deixou de ouvir, mas sorri ainda e, longe ou perto, arranca ao homem esse verdadeiro manto (mais caro do que se fosse feito por alfaiate) que é a sua própria pele, quer ela seja branca, negra ou vermelha — e os seus ossos inertes fazem esgares.

XIII

Assim ri a Morte numa alegria bem triste afinal. Por que será que, com tal exemplo, a Vida não está satisfeita com o que lhe é superior, sorrindo, sem dar importância às ninharias que passam no dia a dia como gotas de água num oceano? E este é decerto menos amplo que o eterno dilúvio que devora os sóis, os mundos e os anos, como se fossem simples raios, átomos e horas.

XIV

«Ser ou não ser, eis a questão», diz Shakespeare, que anda agora muito em voga. Não sou Alexandre nem Hefaisto e nunca morri de amores pela glória abstracta, mas antes queria ter um belo estômago do que o cancro de Bonaparte. Se eu pudesse cavalgar para a glória ou ignomínia depois de cinquenta vitórias sem ter feito a digestão, de que me serviria um nome ilustre?

XV

«O dura ilia messorum!» — «Ó rígidas entranhas dos ceifeiros!» Traduzo para benefício dos que sabem o que é sofrer de indigestão, verdadeiro destino interno que obriga o volumoso caudal do Estige a correr pelo fígado. O suor de um camponês vale bem a propriedade do seu amo. Que o primeiro labute para ganhar pão e o outro que lhe vá extorquindo a renda — e, dos dois, o que dormir mais sossegado deve ser o mais feliz.

XVI

«Ser ou não ser?» Antes de me decidir, gostaria de saber o que é ser. Na verdade, entregamo-nos por vezes a profundas especulações, julgando ser omnividentes, só porque descortinamos qualquer coisa. Não escolho nenhuma das alternativas antes de as ver de acordo, pois penso às vezes que a vida se define mais pela morte do que por um simples acto de respiração.

XVII

«Oue sçais-je?» era a divisa de Montaigne e também dos primeiros académicos e uma das suas atitudes favoritas era a de que tudo o que Homem atinge é duvidoso. A certeza não existe — isso é tão certo como sermos mortais; sabemos tão pouco o que andamos a fazer neste mundo que eu duvido que a própria dúvida consista em duvidar.

XVIII

É talvez agradável navegar como Pirro no mar da especulação, mas que haveremos de fazer quando é a vela que aderna o barco? Os vossos sábios pouco sabem da arte de marear e, se se nada muito tempo nos abismos do pensamento, é natural que se fique exausto. Uma enseada serena de águas baixas e junto à praia convém mais aos nadadores inexperientes, que aí se podem entreter a apanhar belas conchas.

XIX

«Mas o céu», como diz Cássio, «está acima de tudo. Acabemos, pois, com isto e vamos rezar.» Temos que salvar as nossas almas depois do deslize de Eva e da queda de Adão, que arrastaram para a sepultura toda a Humanidade, além dos peixes, animais e pássaros. «A queda do pardal foi uma manifestação da providência.» Não se sabe, porém, qual o seu delito; talvez estivesse empoleirado na árvore do Paraíso...

XX

Oh deuses imortais, o que é a teogonia? Oh homem, mortal dos mortais, o que é a filantropia? Oh mundo do passado e do presente, o que será a cosmogonia? Alguns têm-me acusado de misantropo, mas eu compreendo tanto o significado das suas palavras como esta mesa de madeira. Licantropia, sim, isso percebo, pois os homens estão sempre prontos a tornar-se lobos, mesmo sem passar por metamorfoses.

XXI

Mas a mim por que me chamam misantropo? Eu que sou o mais brando e dócil dos homens, como Moisés ou Melanchton que nunca se excederam, e que (embora tivesse de quando em quando cedido às inclinações do corpo ou do espírito) sempre tive tendência para ser misericordioso? Porque são eles que me odeiam e não inversamente. Mas fiquemos por aqui.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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