Dom João – Canto III

 

No crepúsculo, Byron sonha pela boca de Dom João: Ruvena, Boccaccio, Dante e a melancolia do peregrino.

CANTO III

CII

Avé Maria! Bendita seja a hora, a época, a estação e o lugar em que tantas vezes senti toda a plenitude desse momento, permeando a terra macia e bela, enquanto o som grave do sino da torre baloiçava ao longe, e o hino do dia subia aos céus, ténue e abafado; nem uma aragem percorria o ar rosado e, no entanto, a oração parecia estremecer as folhas do bosque.

CIII

Avé Maria! É a hora de rezar! Avé Maria! É o momento do amor! Avé Maria! Deixa que as nossas almas ousem contemplar-Te, a Ti e a Teu filho! Avé Maria! Que belo é o teu rosto de olhos baixos, enquanto a pomba omnipotente paira sobre ti. Que importa que isto não passe de urna imagem pintada? Ela é demasiado parecida contigo para que possam dizer que é um ídolo.

CIV

Certos casuístas simpáticos gostam de afirmar, em escritos anónimos, que não sou devoto; mas se essa gente ajoelhar ao meu lado a rezar vereis qual de nós conhece melhor o caminho mais curto para chegar ao céu. Os meus altares são as montanhas e o oceano, a terra, o ar, as estrelas — tudo o que brota desse grande Todo, que é a origem e o destino da alma.

CV

Entardecia com doçura na solidão do pinhal e da praia silenciosa que contorna a floresta antiquíssima de Ravena, onde outrora as águas do Adriático se espraiavam até à última fortaleza de César. Floresta sempre verde que os contos de Boccaccio e os versos de Dryden tornaram sagrada a meus olhos, como eu te amava a ti e ao crepúsculo!

CVI

Só se ouvia o estridulo canto das cigarras que povoam os pinheiros e fazem do Verão melopeia ininterrupta, além do ruído que eu e a montada fazíamos e o toque de Avé Marias repercutindo nos ramos. Entretanto, o meu espírito ficava mais sombrio com a imagem do caçador fantasma descendente de Onesti cavalgando em batida com galgos infernais e aquela multidão de beldades que assim aprendeu a não fugir de um amante sincero.

CVII

Ó estrela da tarde benfazeja! Agasalho dos fatigados e conforto dos famintos, tu aconchegas as avezinhas sob a asa tutelar dos pais e guias para o estábulo os bois exaustos. Toda a paz que paira em nossos lares, tudo aquilo que nos é querido e os penates protegem, tu reúnes à nossa volta no teu olhar de quietude. És tu também que encaminhas a criança até ao seio materno.

CVIII

Hora de doçura! Despertas ternura e nostalgia no coração dos navegantes logo que se apartam dos amigos e enches de amor o peregrino que estremece ao ouvir no caminho o sino distante do crepúsculo que parece carpir o dia moribundo. Será tudo isto uma fantasia que a razão olha com desprezo? O certo é que tudo o que morre é chorado.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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