Dom João – Canto II

 

D. João e Haidée: a ironia, em surdina, é um comentário discreto ao idílio dos dois jovens e ao desabrochar do primeiro amor.

CANTO II

CXLVIl

João jazia imóvel e nas suas faces cansadas brincava um rumor febril como o poente nos cumes das colinas distantes que a neve cobre. Havia ainda sinais de sofrimento na sua fronte, cujas veias azuis tinham um ar sombrio, contraído e débil; e os seus negros caracóis estavam impregnados de orvalho marinho, húmidos e salsos da mistura com os vapores da abóbada rochosa.

CXLVIII

Haidée estava debruçada sobre o jovem, que jazia adormecido como uma criança no seio materno, abandonado como ramos de salgueiro em dia de calmaria, embalado como o fundo do oceano em repouso, belo como a mais bela rosa da capela, fofo como o cisne implume no ninho. Numa palavra, era um mancebo bem parecido, embora as provações lhe tivessem dado certa palidez.

CXLIX

Acordou olhando em volta e teria voltado a adormecer se aquele lindo semblante o não impedisse de fechar os olhos; e, no entanto, a dor e o cansaço convidavam-no a prolongar os prazeres do sono. É que para ele nenhum rosto feminino fora criado em vão e, mesmo quando rezava, desviava os olhos dos santos e dos mártires carrancudos e peludos para contemplar a doce imagem da Virgem Maria.

CL

Ergueu-se, apoiando-se no cotovelo e fitou a dama que começou a custo a falar, enquanto o rubor se misturava à palidez da face. Com um olhar eloquente e palavras afectadas ela ia-lhe dizendo, em bom grego moderno, mas com um sotaque jónico, e numa voz baixa e doce, que ele estava fraco e devia tomar alimentos em vez de responder.

CLI

Ora João, que não era grego, não percebia nada, mas tinha ouvido apurado e a voz de Haidée era gorjeio de ave, tão doce, suave e cristalina que nunca se ouvira música mais singela e linda; era um daqueles sons que nos comove até às lágrimas sem sabermos bem porquê, com uma tonalidade omnipotente donde a melodia desce majestosa.

CLII

João olhava, como alguém que desperta ao som distante de um órgão e não sabe se sonha ainda, até que de súbito essa atmosfera de encantamento é quebrada pela voz de uma sentinela ou por outro ruído qualquer que se amaldiçoa, como, por exemplo, o criado que de manhã muito cedo nos bate à porta do quarto. A mim pelo menos tais barulhos incomodam-me, pois gosto de dormir as manhãs, já que as noites emprestam às mulheres e às estrelas um brilho mais cintilante.

CLXI

Depois, a bela Haidée tentou falar, mas João não entendia uma única palavra, embora escutasse tão interessado que a jovem grega, solícita, nunca se teria calado; e, como ele não a interrompia, Haidée continuava a conversar com o seu protegido e amigo, até que, fazendo uma pausa para tomar fôlego, ela compreendeu finalmente que ele não entendia grego.

CLXII

Recorreu então a acenos e a gestos, ao sorriso e à eloquência dos seus olhos faiscantes. E, nas linhas do belo rosto de João — único livro que sabia ler — Haidée descobria uma resposta expressiva, pois a alma é capaz de condensar uma frase longa no brilho breve de um olhar; e nas suas pupilas ela via reflectido e adivinhava um mundo inteiro de coisas e palavras.

CLXIII

Assim, pelo mexer dos dedos e dos olhos e pelos termos que ia repetindo, João teve a sua primeira lição de grego, mas é de supor que ele tivesse prestado mais atenção à beleza de Haidée do que ao seu idioma. Do mesmo modo que os astrónomos sondam os céus, estudando mais nas estrelas que nos livros, assim também João aprendeu melhor o alfabeto no olhar de Haidée do que em qualquer gramática.

CLXIV

É agradável ser instruído numa língua por lábios e olhos femininos — no caso de a mestra e o pupilo serem ambos jovens, claro! Foi pelo menos o que se passou comigo. Os olhos sorriem tanto quanto o aluno acerta! E, se erra, ainda sorriem mais; por vezes há, pelo meio, uma carícia nas mãos e, quem sabe, talvez mesmo um beijo casto. O pouco que sei aprendi-o por este método.

CLXV

Esse pouco são algumas palavras de espanhol, turco e grego. Como não tive professoras, de italiano nada sei. Também não posso ter pretensões de saber muito inglês, pois aprendi esta língua principalmente da boca dos seus pregadores, como Barrow, South, Tillotson, que estudo todas as semanas. Estes e Blair são, pela piedade que praticam e pela prosa que proferem, o apogeu da eloquência. Abomino os vossos poetas. Não leio nem um.

CLXVI

Quanto às damas não me pronuncio, pois abandonei o ambiente requintado da Grã-Bretanha, onde tive a minha voga como os outros e, como eles, tive uma paixão. Mas tudo isso e muito mais passou e todos os loucos, que os meus versos poderiam fustigar, amigos e inimigos, homens e mulheres, agora não passam dum sonho do tempo irreversível.

CLXVII

Mas voltemos a D. João. Ele começou a ouvir palavras novas e a repeti-las. Todavia, um certo sentimento tão universal como o próprio Sol foi-lhe enchendo o peito que já não o podia ocultar. Estava apaixonado (como tu, leitor, também estarias) peia sua jovem benfeitora e ela retribuía esse afecto, como sucede tantas vezes.

CLXVIII

Todos os dias, ao romper da alva — cedo demais para João que era inclinado ao descanso — ela vinha até à gruta para ver a sua ave repousar no ninho. Tocava ao de leve nas madeixas encaracoladas, sem perturbar o sono do seu hóspede e respirava-lhe, com doçura, sobre a face e a boca, como brisa suave do sul soprando num rosal.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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