Dom João – Canto I

 

Requinta-se a arte da sedutora Júlia e Dom João apaixona-se.
Inês sabe-o, mas não intervém; irá o seu próprio filho roubar a mulher de Dom Afonso, amante da sua juventude?

CANTO I

CII

Foi em certo dia de Verão. O Verão é, na verdade, uma estação perigosa tal como a Primavera em fins de Maio. Isto fica-se devendo, sem dúvida, ao calor do sol; seja qual for a causa, pode dizer-se, sem perigo nem receio de errar, que há meses em que a vida da Natureza palpita com maior exuberância. E se Março é o mês das loucuras  primaveris, não poderá ser Maio um mês propício às heroínas?

CIII

Foi num dia de Verão — a seis de Junho. Sou grande apreciador da precisão no tempo e gosto de indicar a era, o ano e o mês também. As datas são uma espécie de paragem, onde os Fados mudam de montada, alterando o rumo da História e depois cavalgam, esporeando por reinos e impérios, deixando atrás de si pouco mais do que a cronologia e o penhor póstumo da teologia.

CIV

Foi então a seis de Junho, por volta das seis e meia — ou talvez fossem mesmo quase sete. Júlia estava sentada à sombra de um caramanchão tão belo como os das Huris no paraíso pagão descrito por Maomé e por Moore, a quem concederam a lira, a coroa de louros e os demais troféus da poesia triunfante. Ele bem os merecia e oxalá os desfrute longo tempo.

CV

Júlia não estava sozinha. Não sei bem como se havia proporcionado aquele encontro e, mesmo que soubesse, não dizia — é preciso ser discreto. Pouco importa como e quando aquilo aconteceu, mas eis Júlia e João sentados frente a frente. Quando dois rostos assim se aproximam, bom seria que seus olhos se cerrassem!

CVI

Que linda era! A inquietação que lhe ardia no peito afogueava-lhe a face e, no entanto, sen- tira-se inocente. Oh Amor! como a tua arte mística é perfeita! Aos fracos dás alento e tornas submissos os que se julgam fortes. Como eles gostam de se iludir, esses sensatos mortais que tu soubeste aliciar! Júlia estava à beira de um abismo tão grande como a fé que tinha na própria candura.

CVII

Reflectia na sua firmeza de ânimo, na juventude de João, na insensatez dos receios provocados pela sua modéstia excessiva, no triunfo da virtude, na fidelidade conjugal e, por fim, nos cinquenta anos de D. Afonso. Melhor seria que os não tivesse recordado na verdade! É que esse número de anos raramente inspira afecto e, em todas as paragens onde o sol brilha e a neve cai, harmoniza-se mais com o dinheiro do que com o amor.

CVIII

Quando alguém observa: «Já te disse cinquenta vezes» é porque nos vai censurar e geralmente assim é. Quando os poetas dizem: Escrevi cinquenta versos» isso constitui talvez uma ameaça de que os vão recitar. Os malfeitores cometem roubos em bandos de cinquenta e, se é verdade que aos cinquenta anos é raro haver amor desinteressado, também é certo que muito se pode comprar com cinquenta luíses.

CIX

Júlia era honrada, virtuosa, honesta e amava D. Afonso; de si para si jurava, por todos votos, na Terra, tinha feito aos Céus, que nunca havia de desrespeitar a aliança conjugal nem teria desejos insensatos. E enquanto pensava nisto e em muito mais, pousou, sem querer, a mão sobre a do jovem. Foi por engano, claro — julgava que era a dela.

CX

Sem dar por isso, Júlia apoiou-se à outra mão que lhe brincava nos meandros do cabelo; e, pelo seu ar de devaneio, dir-se-ia lutar contra ideias que não podia reprimir. Fora sem dúvida um erro da mãe de João deixar sozinhos, aqueles dois imprudentes. Ela, que durante tantos anos vigiara o filho... Minha mãe não teria, por certo, agido assim.

CXI

A pouco e pouco e de mansinho a mão de Júlia continuava a apertar a dele com firmeza, como que a dizer: «Prende-me se quiseres.» É claro que só um puro instinto platónico a levava a apertar-lhe os dedos; se Júlia imaginasse que esta sua atitude podia despertar emoções perigosas para o seu recato de esposa, teria certamente recuado como quem vê um sapo ou uma serpente.

CXII

Não sei bem o que pensou João, mas fez o que qualquer faria. Os seus lábios jovens agradeceram-lhe num beijo e depois retirou-se, embaraçado com o prazer que experimentara e inquieto com o receio de se ter excedido. O amor é tão tímido a princípio! Ela corou sem se irritar; tentou falar, mas calou-se — a sua voz fizera-se sussurro.

CXIII

Pôs-se o Sol e a pálida Lua subiu nos céus; na lua está o demónio que é a nossa perdição. Quer-me parecer que quem lhe chamou CASTA foi prematuro na designação; nem mesmo no dia mais longo do ano, vinte e um de Junho, se assiste a metade das maldades a que o luar preside, sorrindo, em três horas apenas. E todavia, a Lua mantém o seu ar de candura.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

Comments