Dom João - Canto VIII

 

(Um dos passos mais célebres do poema: Ismail cai em poder dos Russos mas a honra das habitantes não corre grande perigo.)

CANTO VIII

CXXVII

Mas deixai que ponha um ponto final no assunto. Também Ismail teve o seu fim — ai, cidade desgraçada! O clarão das suas torres em chamas avistava-se à distância sobre as águas do Danúbio que iam correndo, coradas e vermelhas. Ainda se ouviam terríveis gritos de guerra e um clamor estridente, mas os estrondos haviam diminuído. Dos quarenta mil homens que guarneciam as muralhas algumas centenas respiravam ainda — o resto jazia em silêncio.

CXXVIII

Quanto ao exército russo, há pelo menos que louvar uma virtude muito em voga e que vale, pois, a pena assinalar. Usando a linguagem delicada que convém a tais assuntos, direi que a continência dos soldados talvez se fique devendo ao frio próprio da estação e à longa exposição aos rigores do Inverno ou talvez mesmo à míngua de repouso e alimento. O certo é que poucas mulheres foram violadas.

CXXIX

As tropas mataram, saquearam e violaram outros mandamentos mas não cometeram tantos abusos como os Franceses (povo dissoluto!)
ao apoderar-se tempestuosamente de uma cidade. Não consigo descobrir mais causas para tal comportamento além do frio e da compaixão, mas todas as mulheres ficaram tão virgens como dantes... ou quase! Todas, menos aí umas quatrocentas.

CXXX

Na sombra houve também insólitos enganos devidos à falta de luz (ou de gosto). A fumarada era tanta que mal se distinguiam amigos de inimigos. Enfim, são coisas que acontecem com a precipitação, embora pouco prováveis quando uma réstia de luz põe a salvo a veneranda castidade das damas. No caso de Ismail houve meia dúzia de donzelas de setenta primaveras que foram desfloradas por vários granadeiros.

CXXXI

Em geral, foi grande a pudicícia dos magalas; de modo que houve certo desapontamento entre aquelas pobres solteironas que os Fados haviam condenado sem motivo a arrastar a cruz da «beatitude solitária» e já estavam dispostas a fazer, como os Romanos, um casamento sabino sem as despesas (e surpresas) do leito nupcial.

CXXXII

Também se ouvia a voz das viúvas rechonchudas — quarentonas há muito engaioladas — perguntando, impacientes: «Mas quando será que começam as violações?» Enquanto porém grassou nas tropas a avidez de sangue e da pilhagem, pouco tempo restou para pecados supérfluos. E, se as damas escaparam ou não, ficou envolto em mistério. Cumpre-me apenas desejar que sim.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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