A Peregrinação do Cavaleiro Haroldo – Canto II

 

(Invectiva contra Lord Elgin, que desfigurou o mais belo dos templos gregos, o Pártenon, mandando arrancar os frisos que o decoravam.)

CANTO II

X

Deixai-me sentar aqui na pedra maciça, base incólume desta coluna de mármore. Aqui, filho de Saturno, era o teu trono predilecto! Poderoso entre os deuses poderosos, deixa-me descobrir o esplendor latente da tua morada! Mas não posso. Nem mesmo os olhos da fantasia conseguem já reconstituir aquilo que o tempo se esforçou por desfigurar. E, no entanto, o espectáculo destas colunas altaneiras não desperta suspiros nos viandantes. Os muçulmanos ficam indiferentes e os gregos, despreocupados, passam a cantar.

XI

Mas quem foi o mais recente, o mais bárbaro, o mais embotado de todos os espoliadores daquele templo na colina onde Palas se demorou, sem querer abandonar a última relíquia do seu antigo reino? Ai Caledónia, bem podes corar de vergonha, que é um dos teus filhos! Oh Inglaterra, regozijo-me por não teres sido seu berço! Os teus naturais, que nasceram livres, deviam respeitar tudo o que outrora foi livre; e, todavia, foram capazes de violar os santuários sombrios e transportar os altares sobre as salsas ondas tanto tempo contrafeitas.

XII

Para esse descendente dos Pictos deve constituir motivo de prosápia ignóbil o facto de ter despedaçado aquilo que os Godos, os Turcos e o tempo inexorável haviam poupado. O vândalo que concebeu e executou o rapto dos pobres restos de Atena é duma frieza que lembra as falésias escarpadas da sua costa natal, árida como o seu espírito e empedernida como o seu coração. Seus filhos, demasiado enfraquecidos para defender o santuário sagrado, partilharam, no entanto, as dores de sua mãe; nunca haviam sentido até então o peso dos grilhões do Déspota.

XIII

Pois quê!? Haverá algum britânico que pense que Albion se regozijou com as lágrimas atenienses? Embora fosse em teu nome que os escravos dilaceraram as suas entranhas, não contes essa triste façanha aos ouvidos da Europa, corada de vergonha. A rainha dos mares, a livre Britânia possui os últimos despojos duma terra exangue! Sim, aquela cujo nome se enobrece com os auxílios generosos que têm prestado, despedaçou com mão de harpia essas relíquias o tempo invejoso poupou e os tiranos deixaram intactas.

XIV

Oh Palas, onde estava o teu escudo que aterrorizou o feroz Alarico quando ele se dispunha a saquear-te? Onde estava o filho de Peleu, a quem o Inferno em vão subjugou e cuja sombra, naquela hora terrível, irrompeu do reino das trevas até à luz do dia, armado até aos dentes? Pois quê! Não poderia Plutão dispensar de novo esse chefe valoroso, capaz de afugentar mais um abutre da presa? Ele passeava pelas margens do Estige sem defender, as muralhas que outrora gostava de tomar sob a sua protecção.

XV

Oh sublime Grécia! Frio é o coração que te contempla sem sentir o mesmo que os apaixonados perante as cinzas do seu amor. Insensíveis são os olhos que não choram ao ver os teus muros e os teus santuários carcomidos, desfeitos e para sempre removidos por Bretões, a quem competia antes defender tais relíquias. Maldita seja a hora em que eles partiram da sua ilha, dilaceraram o teu desgraçado seio e arrastaram consigo os teus deuses humilhados até ao inóspito clima das regiões do Norte.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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