A Peregrinação do Cavaleiro Haroldo – Canto I

 

No início da sua viagem, Haroldo visita Portugal,
país que o repele e fascina.

CANTO I

XVI

Oh! Quantas maravilhas Lisboa a princípio nos revela! A sua imagem espelha-se nas águas do sobre Tejo, que a fantasia dos poetas cobre de areias de oiro e onde agora estão fundeados muitos navios poderosos, pois Albion aliou-se aos Lusitanos e acorreu em seu auxílio. Nação pejada de orgulho e ignorância, tu lambes, e odeias as mãos que brandem a espada que te protege da cólera inexorável de Napoleão, senhor das Gálias!

XVII

Quem entrar nesta cidade (que, resplandecendo ao longe, parece celestial) vagueia pelas ruas, decepcionado com tantas coisas desagradáveis aos olhos dum forasteiro. Há tanto lixo nos casebres como nos palácios e os habitantes são sujos e criados na imundície; ninguém de alta ou baixa condição se importa com o asseio do sobretudo ou da camisa e, nem que sobre eles caíssem as pragas do Egipto, continuariam despenteados, desmazelados e desinteressados.

XVIII

Pobres escravos insignificantes, nascidos em paisagens de sonho! Oh Natureza, porque deitas pérolas a tais homens? Mas eis Sintra e o seu Éden resplandecente surgindo num labirinto multicolor de montes e vales. Ai de mim! As mãos não sabem pintar nem descrever metade sequer das maravilhas em que os olhos se deleitam, paisagens mais deslumbrantes para o Homem do que as que foram descritas pelo bardo que abriu as portas do Elísio ao mundo atemorizado.

XIX

Um convento empoleirado no topo de horríveis penhascos, os sobreiros brancos de geada cobrindo a encosta escarpada, o musgo da serra que o sol abrasador queimou, o vale profundo com sombrios arbustos inclinados, o meigo azul do mar sereno, os matizes alaranjados que douram o mais verde ramo, as torrentes que se precipitam das alturas para os vales, a vinha lá no alto e por baixo os ramos dos salgueiros — tudo se combina numa cena grandiosa de variedade e beleza.

XX

Trepem então devagar pela senda sinuosa e parem de vez em quando a apreciar a paisagem que lhes fica para trás. À medida que se sobem penedias, novas maravilhas se contemplam. Repousem no convento da Senhora da Pena onde os frugais monges mostram ao visitante as suas relíquias e lhe contam diversas lendas. Aqui foram castigados homens ímpios; ali, no fundo daquela gruta, viveu muitos anos Honório, que esperava ganhar o céu fazendo desta terra um inferno.

XXI

Aqui e além, enquanto se vão subindo penhascos, notam-se muitas cruzes toscas junto ao caminho; mas não se pense que são ofertas piedosas — são antes frágeis testemunhos de cólera assassina. No local onde, num grito, a vítima se esvaiu em sangue sob a arma homicida, mãos bondosas ergueram uma cruz feita de ripas apodrecidas. Há milhares delas nas florestas e vales desta terra tingida de sangue, onde as leis não protegem ninguém.

XXII

Nas encostas das colinas ou em baixo no vale, há palácios onde moravam reis de antanho, mas hoje, à sua volta, só vivem flores silvestres; e, no entanto, ainda aqui existe um esplendor em ruína. Ali se ergue o magnífico palácio do príncipe. E também tu, Vathek, o inglês mais opulento de todos os tempos, ali plantaste o teu paraíso, parecendo esquecer que, quando a riqueza ociosa realiza os seus maiores objectivos, a doce paz costuma evitar as armadilhas da volúpia.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

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