A Peregrinação do Cavaleiro Harold – Canto IV

 
 

Entre tantos sepulcros de Santa Croce, onde estão os dos filhos mais ilustres da Toscana: Dante, Petrarca e Boccaccio ?

CANTO IV

LIV

No recinto sagrado de Santa Croce jazem cinzas que o tornam duplamente santo, pó que é em si mesmo imortal, mesmo quando só restar o passado e os despojos daqueles espíritos sublimes que regressaram ao Caos. Aqui repousam as ossadas de Angelo, Alfieri e Galileu que conhecia as profundezas do universo e da amargura; aqui também o corpo de Maquiavel tornou ao pó de que era feito.

LV

São quatro espíritos que, como os elementos, eram capazes duma nova Génese. Oh Itália, o Tempo que te castigou, rasgando em mil farrapos o teu manto imperial continuará a negar aos outros países a paternidade daqueles homens que se elevam acima das ruínas; e mesmo o teu crepúsculo está ainda impregnado de luz divina, dourado por seus raios vivificantes. Canova é, hoje em dia, digna sucessora da tua glória.

LVI

Mas onde repousam os três sublimes etruscos? Dante e Petrarca e o não menos ilustre bardo da prosa, espírito criador de cem novelas eróticas — onde depositaram os seus ossos que se distinguem do barro de que somos feitos, na morte como na vida? Já se transformaram em pó sem que os mármores da sua terra natal se tivessem pronunciado? Não poderiam as pedreiras ter fornecido materiais para um busto? Não confiaram eles já o seu corpo ao seio materno da terra?

LVII

Oh Florença, cidade ingrata! Dante dorme longe de ti como Cipião, enterrado numa praia que censura a tua atitude. Durante um conflito pior do que guerra civil, os teus partidos expulsaram aquele cujo nome por todo o sempre o filho dos teus filhos haviam em vão de venerar com um remorso de séculos. Também nasceram em terra alheia e distantes os louros que cingiam a fronte de Petrarca; a sua vida, a sua glória e o seu túmulo (embora violado) — nada disso te pertence.

LVIII

Boccaccio, legou à terra-mãe os seus restos mortais. Estarão eles entre os dos seus mais ilustres filhos, onde muitas vezes se canta um Requiem suave e solene por aquele que criou a língua encantada da Toscana, música pura, cujos sons são cânticos e poesia falada? Não. Mesmo o seu túmulo aberto está exposto aos ataques da hiena e nem está sequer situado entre os dos mortos mais humildes, onde o seu nome poderia ao menos despertar um suspiro de quem passa.

LIX

Em Santa Croce nota-se a falta dos seus corpos ilustres, cuja ausência torna porém mais presentes, como outrora a omissão da efígie de Bruto no cortejo de César recordava aos Romanos com maior nitidez o seu mais nobre concidadão. Ravena, cidade ditosa! Na tua praia envolta na poeira esbranquiçada dos séculos, último reduto dum império em agonia, dorme o imortal exilado no meio de honrarias. Também Arqua defende com avidez e guarda com orgulho o seu tesouro de relíquias poéticas, enquanto Florença chora, implorando em vão os restos do seu poeta proscrito.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

 

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