A Inês

 

Não me sorrias à sombria fronte,

Ai! sorrir eu não posso novamente:

Que o céu afaste o que tu chorarias

E em vão talvez chorasses, tão somente.

 

E perguntas que dor trago secreta,

A roer minha alegria e juventude?

E em vão procuras conhecer-me a angústia

Que nem tu tornarias menos rude?

 

Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,

Nem de baixa ambição honras perdidas,

Que me fazem opor-me ao meu estado

E evadir-me das coisas mais queridas.

 

De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,

É esse tédio que deriva, e quanto!

Não, a Beleza não me dá prazer,

Teus olhos para mim mal têm encanto.

 

Esta tristeza imóvel e sem fim

É a do judeu errante e fabuloso

Que não verá além da sepultura

E em vida não terá nenhum repouso.

 

Que exilado - de si pode fugir?

Mesmo nas zonas mais e mais distantes,

Sempre me caça a praga da existência,

O Pensamento, que é um demônio, antes.

 

Mas os outros parecem transportar-se

De prazer e, o que eu deixo, apreciar;

Possam sempre sonhar com esses arroubos

E como acordo nunca despertar!

 

Por muitos climas o meu fado é ir-me,

Ir-se com um recordar amaldiçoado;

Meu consolo é saber que ocorra embora

O que ocorrer, o pior já me foi dado.

 

Qual foi esse pior? Não me perguntes,

Não pesquises por que é que consterno!

Sorri! não sofras risco em desvendar

O coração de um homem: dentro é o Inferno.


Autor: George (Lord) Byron (1788-1824)
Editado por: nicoladavid

Comments