A Portugal

 

Meu Portugal, meu berço de inocente,
Lisa estrada que andei débil infante,
Variado jardim do adolescente,
Meu laranjal em flor sempre odorante,
Minha tarde de amor, meu dia ardente,
Minha noite de estrelas rutilante,
Meu vergado pomar de rico outono,
Sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
Desde que soube amar; e amei-os tanto!
Sonhava as noites de teus dias ledos
Afogado de enlevo em riso e em pranto.

Quis dar-te hinos de amor, débeis os dedos
Não sabiam soltar da lira o canto,
Mas amar-te o esplendor de imenso brilho…
Eu tinha um coração e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado
De loiros e de acácias olorosas;
De fontes e de arroios serpeado,
Rasgado por torrentes alterosas,
Onde num cerro erguido e requeimado
Se casam em festões jasmins e rosas:
Balsa virente de eternal magia,
Onde as aves gorjeiam noite e dia;

Quem desdenha de ti, mente sem brio,
Ou nunca viu teus prados e teus montes,
Ou nunca, ao pôr do sol de ameno estio,
Viu franjas de oiro e rosa aos horizontes.
Ondas de azul e prata em cada rio,
As perlas e os rubis de tuas fontes,
Nem de teus anjos, térreo paraíso,
Sentiu o magnetismo num sorriso.

Pátria! filha do sol das primaveras,
Rica dona de messes e pomares,
Recorda ao mundo ingrato as primas eras
Em que tu lhe ensinaste a erguer altares.
Mostra-lhe os esqueletos das galeras,
Que foram descobrir mundos e mares;
E se um povo não vir teu manto pobre,
Ri-te do fátuo que se julga nobre.

Três testemunhas tens, que ao mundo inteiro,
Grandes, hão de levar a tua glória:
Camões, o sol, e o oceano: que o primeiro
Ergueu-te em alto canto a nobre história.

Com prantos e com sangue audaz guerreiro,
O seu livro escreveu de alta memória!
Lede os cantos divinos do poeta
Entoados em harpa de profeta!

O mar na eterna luta porfiosa,
Cansado de correr, largos desvios,
Vem afogar a sede angustiosa
No saboroso néctar de teus rios.
E quando noutra idade mais ditosa,
Tu mandaste alongar teus senhorios,
Conhecendo o roçar de tuas sondas,
Cavou as penhas e aplanou as ondas.

Bramir ouviste o gênio das tormentas
Algoz de tanto nauta aventureiro,
Vestido de neblinas pardacentas,
Assoprando golfadas de aguaceiro;
Mas quando viu nas quilhas tão atentas
Içado teu pendão tão altaneiro,
Acendendo o santelmo resplendente
Iluminou-te as portas do Oriente.

Fiel, sempre fiel à tua glória,
Conduziu-te o Evangelho a longes terras;
Acompanhou-te os cantos da vitória,
Saudou-te os brios nas longínquas guerras!
Rasguem, embora, ó pátria, a tua história;
Enquanto o mar bramir quebrando as serras,
Ou brincar nas areias em bonança,
Há de falar de ti, pátria, descansa!

Qual no deserto o lasso viandante
Vai no oásis sentar-se ao fim do dia,
Achando, extenuado e arquejante,
Verdor, fontes, aromas e harmonia,

E naquela atmosfera inebriante
Se alimenta, se farta, e se extasia,
Tu és do sol oásis reservado,
Jardim da Europa à beira-mar plantado.


Autor: Tomás Ribeiro (1831-1901)
Editado por: nicoladavid

Comments