"A Judia"

 
Corria a branda noite; o Tejo era sereno;

a riba, silenciosa; a viração subtil;

a lua, em pleno azul erguia o rosto ameno

no céu, inteira paz; na terra, pleno Abril.

 

 

Tardo rumor longínquo; airoso barco ao largo

bordava áureo listão do Tejo ao manto azul;

cedia a natureza ao celestial letargo;

traziam meigos sons as virações do sul.

 

 

Ó noites de Lisboa! Ó noites de poesia!
auras cheias de aromas! esplêndido luar!
vastos jardins em flor! Suavíssima harmonia!
transparente, profundo, infindo, o céu e o mar...

 

Se a triste da judia ousasse ter desejo
de pátria sobre a terra, aqui prendera o seu
um bosque sobre a praia, um barco sobre o Tejo,
o eleito da minh’alma um coração só meu!...

 

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Corria branda a noite; imersa em funda mágoa

fui assentar-me triste e só no meu jardim:

ouvi um canto ameno! e um barco ao lume d’água

vogava brandamente. A voz dizia assim:

 

 

“Dormes? e eu velo, sedutora imagem,
grata miragem que no ermo vi:

dorme  - Impossível -  que encontrei na vida!
dorme, querida, que eu descanto aqui!

 

 

Dorme! eu descarto a acalentar-te os sonhos,

virgens, risonhos, que te vêm dos céus:

dorme, e não vejas o martírio, as mágoas

que eu digo às águas e não conto a Deus!

 

 

Anjo sem pátria, branca fada errante,

perto ou distante que de mim tu vás,

há-de seguir-te uma saudade infinda,

hebreia linda, que dormindo estás.

 

 

Onde nasceste? onde brincaste, ó bela;
rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egito?...

mundo infinito, e tu sem berço?! oh! sim,
 

 

folha que o vento da fortuna impele,
vitima imbele que um tufão roubou!

flor que num vaso se alimenta, cresce,

ri, desaparece, e nunca mais voltou!

 

 

Filha dum povo perseguido e nobre,

que ao mundo encobre o seu martírio, e crê:

sempre Ashevero a percorrer a esfera!

desgraça austera! inabalável fé!

 

 

porque há-de o lume de teus olhos belos,

mostrar-me anelos d’infinito ardor?

porque esta chama a consumir-me o seio?

Deus de permeio nos maldiz o amor!..

 

 

Peito! meu peito, porque anseias tanto?

pranto! meu pranto, basta já, não mais!

é sina, é sina! remador voltemos;
não n’a acordemos... para quê, meus ais?...

 

 

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
grata  miragem que no ermo vi:
dorme -  Impossível -  que encontrei na vida!
dorme, querida,  que eu não volto aqui!” -

 

 

Sumiu-se a barca e eu chorava

debruçada sobre o Tejo:

a aragem trouxe-me um beijo

que nos meus lábios tomei…

ergui-me cheia d’afecto;

vi cintilar ainda a esteira

da barquinha feiticeira,

e disse às auras: “Correi!

trazei-mo! quero contar lhe

o fundo tormento enorme

da judia que não dorme

a penar d’ignoto amor!

Voai! trazei-me o seu nome,

o seu retrato, o seu canto,

uma baga do seu pranto

que venha o meu trovador!…

 

 

Ai, não! que há na minha história

que lhe suavize a tristeza?

Nasci na triste Veneza,

onde perdi minha mãe;

acalentaram-me lágrimas

que derramava a saudade,

na desgraçada cidade

que não tem pátria também

Cresci; meu pai uma noite

Disse-me: “É já tempo agora;

 

 

ergue-te ao romper da aurora

vamos partir amanhã;

vamos ver as terras santas,

sepulcros de teus monarcas;

a pátria dos patriarcas,

desde o Egipto ao Chanaan,,

Fui; corri o mapa imenso

das montanhas da Judeia;

ai pátria da raça hebreia!

ai, desditosa Sião!

que extensos montes sem relva!

que paragens sem conforto,

onde se estende o Mar-Morto

e onde serpeia o Jordão!…

 

 

Aqui, de Hemor os vestígios;

de Sife, além o deserto,

longe, o Sinai encoberto;

d’Horeb o morro, ainda além;

deste lado, o Mar Vermelho;

daquele... nada! uns destroços:

ruínas, campas sem ossos,

e, ao fundo, Jerusalém.

 

 

Meu pai chorava, e eu chorava,

vendo morta e sem prestígio,

terra de tanto prodígio,

maldita agora de Deus.

Tudo silencioso, estéril

tudo vastos cemitérios

onde ruínas d’impérios

ficaram por mausoléus!

 

 

- “Meu pai - disse eu - tenho sede…

-“Vê , filha, a aridez do monte:

só Deus dava ao ermo a fonte

em que bebia Ismael.”

 “Pai, cansei; mostra-me a pátria

quero dormir sem receio…,

“Filha, encosta-te ao meu seio,

que não tem pátria Israel….

 

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Em rodo o mundo estrangeiro,

toda a vida peregrina!

Vede se há mais triste sina:

Ser rica e não ter um lar!

Sempre a lenda do Ashevero!

sempre o decreto divino!

sempre a expulsar-me o destino,

como Abraão à pobre Agar!

 

 

Que pode valer à hebreia

sentir n’alma chama infinda,

como a linda Ester ser linda

e amada como Raquel?

Se o coração da judia

se entreabre do amor aos lumes

não lhe dá tempo aos perfumes

o seu destino cruel.

 

 

Ai, trovador nazareno,

não voltes! tenho receio.

Dizes que é Deus de permeio?

não, blasfemaste: Deus, não.

Pôs o mundo esse impossível

entre o desejo e a ventura;

o amor chama-lhe loucura,

e o preconceito razão

 

 

Deus é Deus, e um só existe;

cego é o mundo, e vária a crença;

mas esta cúpula imensa

é tecto de todos nós:

este ambiente que respiro,

da lua e do sol os brilhos,

hão-de ser de nossos filhos,

foram de nossos avos.

 

  

Mas se a crença nos separa

e o mundo exige o suplício,

dê-se o amor em sacrifício,

deixando se o pranto à dor;

eu, cerro o peito à ventura;

tu, esmaga o teu desejo;

não mais virei junto ao Tejo...

não voltes mais, trovador!

 

 

Autor: Tomás Ribeiro (1831 - 1901)
Editado por: nicoladavid

 

 

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