"Carta a El-Rei D. João III"

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo. 
 

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes.

Que Deus té 'gora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.
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As vossas velas, que vão

Dando quase ao mundo volta.
Raramente contarão

Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo
é vão.

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Um rei ao reino convém.
Vemos que alumia O' mundo
Um sol, um deus o sustem.
Certa a queda e o fim tem

O reino onde há rei segundo. 
 

Não ao sabor das ovelhas
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas.

A cabeça os membros manda,
Seu rei seguem as abelhas. 
 

A tempo o bom rei perdoa,
A tempo o ferro
é mezinha.
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa

Da sua grei montesinha. 
 

Às' aves, tamanho bando.:

D'outra liga e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei;

Que o sol claro atura, olhando,

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Sobre obrigações tamanhas,
Velem-se com tudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis
Fazer teias das aranhas! 
 

Que se não pode fazer,

Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não' chamam valer

Salvo ao que lhes vai' na praça.

E, por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços

Que ante vós, senhor, se encolhem,
D’uns gigantes de cem braços

Com que dão e com que tolhem. 
 

Quem graça ante el-rei alcança,
E hi fala o que não deve,

¾  Mal grande da má privança! ¾
Peçonha na fonte lança

De que toda a terra beve. 
 

Quem joga onde engano vae,
Em . vão corre, e torna atrás,
Em
vão sobre a face cae.·'
Mal hajam as manhas más'

O 'onde tanto dano sae! 
 

Homem dum só parecer,
D'um só rosto, uma só fé,
D’antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,

Mas de corte homem não é. 
 

Tudo seu remédio tem,

E que é assim bem o sabeis.'
E ao remédio também.
Querei-Ios conhecer bem?

No fruto os conhecereis.
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Ah! senhor, que vos direi

Que acede mais vento às velas?
Nunca se descuide o rei,

Que inda não é feita a lei

Já lhe são feitas cautelas.

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Autor : Sá de Miranda (1451-1558)
Editado por: nicoladavid

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