Sugestão

 

Sede assim — qualquer coisa

serena, isenta, fiel.

 

Flor que se cumpre,

sem pergunta.

 

Onda que se esforça,

por exercício desinteressado.

 

Lua que envolve igualmente

os noivos abraçados

e os soldados já frios.

 

Também como este ar da noite:

sussurrante de silêncios,

cheio de nascimentos e pétalas.

 

Igual à pedra detida,

sustentando seu demorado destino.

E à nuvem, leve e bela,

vivendo de nunca chegar a ser.

 

À cigarra, queimando-se em música,

ao camelo que mastiga sua longa solidão,

ao pássaro que procura o fim do mundo,

ao boi que vai com inocência para a morte.

 

Sede assim qualquer coisa

serena, isenta, fiel.

 

Não como o resto dos homens.

Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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