Subo e desço noite e dia



Subo e desço noite e dia,
noite dia subo e desço
por mil escadas de nuvens
no castelo em que padeço.


Subo com ramos de flores,
e a água dos jarros esqueço,
há mil escadas de nuvens
no trabalho que ofereço.


Ai, que trabalho tão grande
nas nuvens que subo e desço
não só por águas e flores,
mas recados de mais preço,


que me mandam, que me chamam,
neste sem fim nem começo,
castelo entre a vida e a morte
de um dono que não conheço.


Subo e desço noite e dia,
gasto-me e desapareço...
Ai que castelo tão alto,
tão alto e sem endereço!


Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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