Rua dos rostos perdidos

 

Este vento não leva apenas os chapéus,

estas plumas, estas sedas:

este vento leva todos os rostos,

muito mais depressa.

 

Nossas vozes já estão longe,

e como se pode conversar,

como podem conversar estes passantes

decapitados pelo vento?

 

Não, não podemos segurar o nosso rosto:

as mãos encontram o ar,

a sucessão das datas,

a sombra das fugas, impalpável.

 

Quando voltares por aqui,

saberás que teus olhos

não se fundiram em lágrimas, não,

mas em tempo.

 

De muito longe avisto a nossa passagem

nesta rua, nesta tarde, neste outono,

nesta cidade, neste mundo, neste dia.

(Não leias o nome da rua, - não leias!)

 

Conta as tuas historias de amor

como quem estivesse gravando,

vagaroso, um fiel diamante.

E tudo fosse eterno e imóvel.

 

Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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