Romanceiro da Inconfidência (trecho)


Não posso mover meus passos

por esse atroz labirinto

de esquecimento e cegueira

em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,

percebo o roçar das rezas,

vejo o arrepio da morte,

à voz da condenação;

- avisto a negra masmorra

e a sombra do carcereiro

que transita sobre angústias,

com chaves no coração;

- descubro as altas madeiras

do excessivo cadafalso

e, por muros e janelas,

o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.

Suam soldados imóveis.

Na frente dos oratórios,

que vale mais a oração?

Vale a voz do Brigadeiro

sobre o povo e sobre a tropa,

louvando a augusta Rainha,

– já louca e fora do trono –

na sua Proclamação.

Ó meio-dia confuso,

ó vinte-e-um de abril sinistro,

que intrigas de ouro e de sonho

houve em tua formação?

quem condena, julga e pune?

quem é culpado e inocente?

na mesma cova do tempo

cai o castigo e o perdão.

Morre a tinta das sentenças

e o sangue dos enforcados …

- liras, espadas e cruzes

pura cinza agora são.

Na mesma cova, as palavras,

e o secreto pensamento,

as coroas e os machados,

mentiras e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,

ossos, nomes, letras, poeira…

Onde, os rostos? onde, as almas?

Nem os herdeiros recordam

rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,

presídios de sal e treva

onde os homens padeceram

sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,

nem os que chorar queremos:

contra rocas de ignorância

rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,

esse esquema sobre-humano,

a força, o jogo, o acidente

da indizível conjunção

que ordena vidas e mundos

em pólos inexoráveis

de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes

por onde se precipitam

inexplicáveis torrentes,

por eterna escuridão!

 

Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid




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