Poema a Antonio Machado

Contigo, Antonio, Antonio Machado,
contigo quisera passear,
por manhã de serra, por noite de rio,
por nascer de luar.

Palavras calmas que fosses dizendo,
seriam folhas movidas no ar.
Tu eras a árvore, a árvore, Antonio,
com sua alma preliminar.

Palavras tristes que não me dissesses,
sentidas ao vento, por outro lugar,
os deuses dos campos as recolheriam,
para as transformar.

Tu eras a árvore andando na terra,
com raízes vivas, pássaros a cantar.
Contigo, contigo, Antonio Machado,
fora bom passear.

Por montes e vales ir andando, andando,
e, entre caçadores que vão a caçar,
ouvir teus lebréus perseguindo a lua,
corça verde, no ar.


Autora: Cecília Meireles (1901-1964), em Mar Absoluto
Editado por: nicoladavid


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